A história dos roteiros descartados de Alien 3

Dirigido por James Cameron, Aliens: O Resgate trouxe para a franquia uma nova abordagem que deu muito certo. Hoje alguns fãs até consideram o segundo filme superior ao primeiro de 1979. Mas como sabemos bem, a obra de Cameron teve um final que abria um leque de muitas possibilidades e, no fim da história, muitos ficaram se questionando: qual foi o destino de Hicks, Newt e Ripley?

Por muitos anos essa questão ficou sem uma resposta nos filmes, já que a história teve apenas uma continuação no quadrinho Aliens: Outbreak de 88. E demorou um bom tempo para que David Giler e Walter Hill da 20th Century Fox encontrassem uma resposta para a pergunta deixada pelo filme de Cameron em 86.

Claro que durante a produção de Aliens: O Resgate James Cameron teve as suas ideias para Alien 3. Uma delas tinha Ripley, Hicks e a pequena Newt vivendo como uma família improvisada diante dos terríveis eventos. Mas Cameron saiu do universo de Alien e nunca mais retornou oficialmente, tendo apenas uma breve participação em um projeto de uma prequel ao lado de Ridley Scott, porém ela acabou sendo deixada de lado para dar lugar a Alien vs Predador de Paul W. S. Anderson.

Um dos maiores problemas na hora de decidir qual seria o melhor rumo para Alien 3 foi a alta qualidade dos filmes anteriores. Se o filme fosse abaixo do esperado, a produção iria sentir esse peso – e de fato sentiu! Mas tanto os fãs quanto a Fox queriam ver uma sequência, então, mesmo receosos, Giler e Hill começaram a sua busca por ideias.

Alien 3, dirigido por David Fincher, chegou aos cinemas em 1992. Mas até chegar ao resultado final, muitas histórias de diferentes autores foram analisadas e Alien 3 poderia ter sido totalmente diferente.

No post de hoje vamos falar sobre os roteiros descartados de Alien 3! Será que algum deles era melhor do que o que foi para as telonas? É o que vamos saber.

Alien 3: Os roteiros descartados

Xenomorfos na Terra

Uma das primeiras ideias para Alien 3 foi a chegada dos monstros espaciais na Terra, mas dessa vez eles não seriam os xenomorfos como conhecemos.

Segundo uma matéria publicada em 1992 na Escape Magazine, eles iriam se tornar um “monstro gigante e multi-talentoso que destrói a cidade de Nova Iorque.” Bom, seja o que for esse “monstro gigante e multi-talentoso,” não me pareceu uma boa ideia. Ainda prefiro a chegada dos Aliens na Terra como foi feita pela Dark Horse.

Essa versão chegou a ganhar um teaser com direito à frase: “Em 1979 nós descobrimos que no espaço ninguém pode te ouvir gritar. Em 1992, nós vamos descobrir que na Terra todo o mundo pode te ouvir gritar.”

Pois é, o teaser você pode conferir no vídeo acima.

Alien a la Blade Runner

anime blade runner

Uma das teorias mais fortes entre os fãs dos filmes de Ridley Scott é que as franquias Alien e Blade Runner se passam no mesmo universo. Pistas que reforçam essa teoria é o que não falta! E uma das primeiras ideias exploradas na produção de Alien 3 foi Ripley e Newt chegando em uma metrópole futurista em outro planeta, onde elas seriam caçadas por uma criatura extremamente ágil nos entornos da cidade.

Esse roteiro, que realmente tem um ar de Blade Runner, surgiu quando Ridley Scott estava cotado para retornar como diretor. Mas no final dos anos 80 ele já estava envolvido em diversos outros projetos como o thriller Chuva Negra e o drama Thelma & Louise.

Alien 3 nas mãos de William Gibson

William Gibson

Um dos escritores mais notáveis da ficção científica quase se tornou o roteirista de Alien 3. Algumas das ideias mais conhecidas de roteiro de Alien 3 foram dois esboços criados pelo lendário escritor William Gibson. Depois de ver o trabalho de Gibson em Neuromancer, Giler achou que a representação da Terra do autor era perfeita para o universo de Alien. Pásmem, ele não sabia que uma das inspirações de Gibson foi justamente o filme Alien!

Na história de William Gibson, a Sulaco seria capturada por uma colônia chamada Union of Progressive Peoples, um grupo que estaria em uma guerra fria contra a Weyland-Yutani. Dentro da Sulaco, a UPP encontra e captura as partes de Bishop, mas eles percebem que há algo mais ali quando um facehugger escondido em uma câmara de hipersono ataca.

A Sulaco é levada até Anchorpoint, um posto avançado espacial que é propriedade da Weyland. Ao despertar, Hicks logo percebe que está em meio a uma crise diplomática: a breve presença da Sulaco nas mãos da UPP desencadeia em uma guerra. Além disso, com o DNA dos Aliens em mãos, a UPP tenta criar uma arma mortal e a Weyland, para não ficar pra trás, também busca desenvolver a sua própria arma baseada no DNA dos Aliens. O resultado disso vocês já devem imaginar.

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O roteiro do William Gibson pode ser encontrado na internet, e é interessante ver como ele traz novas ideias para o universo, como um gás que sai dos ovos dos aliens e uma nova Rainha mais perigosa.

Atualmente esse roteiro está sendo publicado na forma de uma HQ que já teve a sua primeira edição lançada. Você pode saber mais sobre ela no nosso vídeo:

Já o segundo roteiro de Gibson teve uma escala menor, com menos aliens e tornando Anchorpoint um lugar praticamente deserto. Mas a sua história acabou sendo deixada de lado, já que não era “inventiva” o suficiente. Segundo Gibson, uma das poucas coisas que restou do seu esboço foi o personagem com um código de barras tatuado na cabeça.

Zona Rural Espacial e outras loucuras – Alien 3 de Eric Red

Arte Ilustrativa

Você já imaginou Alien nos moldes de filmes B como Evil Dead? Se os produtores queriam algo totalmente diferente dos filmes anteriores, eles certamente teriam com esse filme. Eric Red é um nome bem conhecido no cinema, ele foi diretor e roteirista do filme de lobisomem Lua Negra e também escreveu o clássico A Morte Pede Carona.

O seu roteiro de Alien 3 veio em 1989, quando Renny Harlin havia sido escalado para ser diretor da tumultuada produção. Na história de Red, os eventos iriam se passar em uma estação espacial em órbita que lembrava o meio-oeste americano no século 20. Ou seja, o cenário iria deixar de lado os corredores metálicos e paneis luminosos para apostar em campos de trigo, silos, moinhos de vento e até um cinema drive-in.

O protagonista seria um soldado chamado Sam Smith, que despertaria com um braço robótico e sem nenhuma lembrança do seu passado. Sam seria parte de um destacamento enviado para explorar a Sulaco que havia sido tomada por aliens. Em busca de informações, Sam adentra uma base militar e descobre que um cientista chamado Dr. Rand tem feito experimentos com os xenomorfos. Em uma das cenas, Sam descobriria um curral repleto de animais híbridos alienígenas, incluindo cães, gatos, porcos e galinhas.

Um tanto estranho, não é mesmo? Pois é! O roteiro de Alien 3 de Red também teria uma cena de sexo em gravidade zero, uma sequência onde um alien ficaria com um braço preso em uma unidade de eliminação de resíduos e um momento no qual a mãe do protagonista, Mary, cortaria um alien ao meio com uma motosserra (alô, Evil Dead!). Isso sem contar uma criatura chamada “A Coisa Alien Humana”.

Segundo Red, ele escreveu o seu esboço de roteiro em poucas semanas em meio a várias reuniões e notas dos produtores para tentar montar uma história com a sua ideia.

David Twohy e a prisão orbital Ilha Moloch

Com dois anos de pré-produção, Alien 3 voltava à estaca zero. Foi um consenso geral que o roteiro de Eric Red daria errado e isso resultou na sua saída da produção. O filme também perdia o diretor Renny Harlin que foi fazer Duro de Matar 2. Sem ter uma direção a seguir, Giler e Hill apostaram em David Twohy, roteirista de Gremlins 2, que passou seis meses retrabalhando o esboço de William Gibson.

Só nesse momento o Alien 3 que conhecemos hoje começou a tomar forma. O roteiro de Twohy se passava em uma estação espacial na órbita da Terra – uma prisão de nome Ilha Moloch. O filme não teria Ripley e os outros sobreviventes, ele seria contado da perspectiva do prisioneiro recém-chegado Styles e outros novatos.

Mas além de ser uma prisão, a Ilha Moloch também era palco de experimentos hediondos. Anos antes, um facehugger fossilizado foi encontrado por um minerador e levado até a Weyland. Styles descobre que prisioneiros estão sendo usados em experimentos em um laboratório secreto e que a Companhia tem uma câmara onde aliens são cultivados do zero.

Alien 3 com o roteiro de Twohy seria repleto de fugas em corredores, com Styles e os outros prisioneiros tentando escapar da estação em uma situação de descontrole.

Esse roteiro tinha um cenário plausível, um local fechado o suficiente para se criar o suspense de um bom filme de Alien, além de ser diferente dos locais dos filmes anteriores. Porém, surgiu um problema: O presidente da Fox, Joe Roth, pediu a volta de Ripley para a franquia.

Como a personagem não se encaixava nesse roteiro, Twohy começou a reescrever, dessa vez colocando Ripley em meio a um planeta prisão. E claro, a produção ainda precisava encontrar um diretor.

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O Planeta de Madeira – Alien 3 de Vincent Ward

Apesar das loucuras do roteiro de Eric Red, para mim essa é a versão mais interessante e inusitada. O neozelandês Vincent Ward havia acabado de dirigir o longa The Navigator: A Medieval Odyssey, que foi exibido no Cannes e elogiado pelo seu belíssimo visual. Isso chamou a atenção de Walter Hill, que acreditava ter encontrado o diretor de Alien 3.

Só que surgiram dois problemas: Ward era um cineasta independente colocado para dirigir um grande projeto Hollywoodiano e ele não tinha se interessado nem um pouco pelo roteiro de Twohy.

Desesperados para ter Ward na produção, os produtores deram a ele total liberdade para escrever o seu próprio roteiro. Feito isso, eles o tinham na palma das mãos. Fascinado pelo imaginário e folclore medieval, Ward veio com um conceito totalmente novo: uma estação orbital com uma camada exterior de madeira. Nela vivia um grupo de monges que levava uma vida simples, longe de todos os “maus” da tecnologia.

Ripley chegaria ao planeta em uma nave de fuga, mas com ela vêm também os aliens, que os monges acreditam ser criaturas das profundezas dos infernos. O chestburster sai da sua vítima como um demônio e o alien adulto é considerado um dragão, ou até mesmo o próprio Demônio em pessoa.

Apesar de ser uma ideia bem surreal, o mundo de Ward era bem elaborado no seu roteiro: vemos monges soprando vidro. Há uma grande biblioteca. No topo da estação existe um mar artificial, a fina atmosfera proporcionando uma janela ininterrupta para as estrelas. Até aí o ambiente tecno-medieval até poderia funcionar, mas ele vai mais além com ideias que poderiam se tornar meio absurdas, como um Alien lanudo saindo de dentro de uma ovelha.

Boa parte das ideias desse roteiro, concebido por Ward e escrito por John Fasano, acabariam sendo incluídos em Alien 3 em 1992. O tom meio apocalíptico, prisioneiros em um planeta sem armas de fogo e Ripley impregnada por um Alien são algumas dessas ideias.

Como a Fox já tinha convencido Sigourney Weaver a voltar para a franquia, Ellen Ripley foi incluída novamente na história.

Um ponto polêmico desse roteiro que foi mantido foi o fato de apenas Ripley ter sobrevivido aos eventos de Aliens: O Resgate. Hicks e Bishop morrem a bordo da Sulaco e Newt morre na queda da nave de fuga no planeta de madeira.

O primeiro esboço de Ward com Fasano ficou pronto em março de 1990 e parecia que a Brandywine estava pronta para iniciar a produção. Artes conceituais foram feitas e até mesmo sets começaram a ser construídos, mas os executivos não estavam confiantes na ideia do diretor. Para eles, a ideia de uma construção de madeira no espaço era absurda e esnobe.

Frustrado, Ward deixou a produção.

Seria o fim? A última versão de Alien 3

Alien 3

Com a data das filmagens chegando e sem um diretor, Hill e Giler começaram a reescrever o roteiro de Fasano sozinhos. Larry Ferguson foi contratado para ajustar o roteiro, mas Ripley não gostou do trabalho. Segundo ela, os diálogos a faziam parecer uma “instrutora de academia mal-encarada”.

No meio de toda essa bagunça chegava o diretor David Fincher, ainda jovem, e lutando para ter as suas ideias aceitas. Em janeiro de 1991 as filmagens se iniciaram, mas o roteiro ainda tinha páginas sendo reescritas enquanto as cenas aconteciam na frente das câmeras. Foi um verdadeiro desafio para Fincher, que supervisionou 16 horas de filmagens durante a semana enquanto trabalhava nas revisões do roteiro no pouco tempo que sobrava.

Quando Alien 3 chegou aos cinemas em maio de 1993, ele já tinha custado 50 milhões de dólares à Fox – mais do que o dobro do orçamento de Aliens: O Resgate. E o resultado final foi uma colcha de retalhos de ideias tiradas dos roteiros anteriores. No fim a história do filme foi creditada a Vincent Ward, mas claramente ele manteve elementos de todos os roteiros anteriores, desde os híbridos de animais e aliens de Eric Red até a prisão colônia de Twohy.

O processo de criação de Alien 3 foi tão doloroso quanto o nascimento de um xenomorfo, e ter chegado ao fim já foi uma grande vitória para esse filme. Talvez fosse interessante conhecer melhor as outras histórias na forma de quadrinhos spin-offs, como está sendo feito com o roteiro de William Gibson. Mas sabendo como foi o processo de produção do filme, podemos entender porque ele parece ser, de fato, uma colcha de retalhos e um dos filmes menos queridos da franquia Alien.

2 COMENTÁRIOS

  1. Hã, baim……….tirando o roteiro em que o terceiro filme não teria a presença de Ripley, que no meu ver seria a melhor saída, ainda prefiro continuar negando a história e acreditando que toda a trama acabou em Aliens – O Resgate.

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